Domingo, Março 01, 2009

L'autre bout à rebours


Le bout de mes doigts ronds cachent ma vue aplatie par nombre d'expériences échouées.


Le bout de ma langue, venimeuse, interdit mes mots qui renferment mon visage carré. Quatre bouts vides, quatre angles gauches, quatre-vingt-dix degrés sur quatre égalent zéro.


Jadis, je me plaignais de la laideur du monde. Un monde à moi, que je me suis bâti avec ces mêmes doigts arrondis par le lent écroulement du temps.


Dorénavant cette même hideur s'accomodera en moi, me saccadera, secouera ces structures. Et j'aurai beau fermer les yeux devant le mirroir puisque tôt ou tard "tu deviens ce qui t'effraie".


Les ratures marquent la surface de la vie, elle aussi ayant le droit de se tromper. Cette même vie qui parfois nous trompe ou nous a déjà trompés. À nous, nos yeux, mon œil. Trompe-l'œil.Les traits et les traces y resteront malgré tout.


Quoique je fasse, je demeures là, loin. Longueur d'avance à ne jamais attraper, à ne jamais saisir. Une barrière à ne pas franchir, une borne, limite. Borne limite.


Quoique je prie, personne ne répond. Le monde est désert et Dieu s'en est allé. Il est sage.

Depuis, le monde est sourd. Toi aussi, tu as a hérité du silence, ce néant qui s'étend, ombre grise qui s'eparpille, lourdeur noire qui s'émiette et frappe.


Écoute-le : il étourdit plus qu'un cri.


Quoique je fusse, je serai toujours n'importe quoi. Et je m’en réjouis.

Et je reviens au bouts de mes doigts ronds.

Et j’apercois mon haleine.

Mon souffle.

Le bout de mon souffle.

Mon souffle à bout.

Le bout de mes forces qui disparaissent au coucher de l'éternité qui m’a été interdite.

Mes bouts sont à rebours.

À l’envers.

L'envers de moi.

Mon envers. Mes vers.

Ces vers envers moi-même.


Cícero Oliveira


Imagem: Dança, Lívio Abramo, s/d.

Sábado, Fevereiro 28, 2009

Agreste


O que significa sentir-se um lixo? Explico. É se sentir a pior pessoa do mundo, é ter consciência de que sua existência é inútil e de que sua inexistência irá até tornar o mundo melhor. É ver que você atingiu uma certa idade e que não conseguiu construir nada. É lamentar que amanhã será um novo dia e que a vida continua. É não ver sentido em nada do que você faz, e sobretudo no fato de estar nesse planeta. É ter vergonha de escrever o que estou escrevendo e mesmo assim publicar, esperando que alguém leia e fique com pena - como se isso fosse resolver alguma coisa. É se sentir no fundo do poço e ainda cavar um pouco mais, pra torná-lo mais fundo e, quem sabe, não conseguir sair de lá”.


(Uma desconhecida de si mesma)





Para quem se habituara a decifrar textos difíceis, aprender a ler aquele livro não estava sendo tarefa fácil: as letras deveriam desaparecer para que adviesse a palavra. E as palavras, perder-se ante seus olhos para que o que ali surgisse, explicasse o sentido daquele caminhar entre pedras pontiagudas.


Respirar, seguir em frente, exprimir e espremer sua história cotidiana. Não tinha escolha já que devia arar a roça, distribuir o déjeuner du matin. Mais um dia, a vida continuava - absurda. Il faut continuer encore. Il faut continuer un peu. Il n’y a pas de sens mais il faut continuer.


As palavras eram sempre insuficientes e jamais revelavam o essencial. Tudo, no final das contas, sempre ficava por dizer, no ar. No ar e nos campos. Nos campos e nas planícies verdes e férteis, prados fecundos, como aquela que, à son insu, levantava todas as manhãs para semear plantações - duras, árduas. Secas. Mas que vencia a aridez primeira do solo e atingia o sumo da terra: tudo o que ali chegasse, cresceria.


Ninguém nunca entenderia (nem ela mesma).


Há anos vinha cavando um poço. Concentrava-se tanto em seu intento, que não percebera que dali do fundo, a água jorrava. E, há muito, irrigava grandes extensões de terra. Terra árida, agreste, na qual nasceram flores que, um dia, talvez, tivesse coragem de sentir o perfume.


A parte deve permanecer discreta para que o todo possa emergir. Era duro sempre ser parte, transparente, opaca, oca, fragmento, caco. Pedaço. Deitar-se, levantar-se, olhar os outros, olhar a si sendo uma ínfima, minúscula parte.


Nada além de uma parte de si.


Mas a parte (principalmente a integrante) nunca se vê como todo. E, frequentemente, ignora tudo o que acontece nas margens.


Aquele livro estranho, bizarro, não tinha prefácio. Mas tinha autora. E parecia estar escrito numa língua que todos podiam ler. Todos, menos uma: aquela que, com giz e dor, gravava as palavras no quadro negro da vida.


O que escrevia diante de seus olhos, ela mesma não compreendia. Fazia um esforço grande para escrever sua trajetória, mas “os poetas não têm biografia. Sua obra é sua biografia” (Octavio Paz).



Imagem: Sergio Fingermann, Sem título, 2007.



Sábado, Novembro 01, 2008

L'evide(r)


Ça recelait une énorme solitude qu'il n'avait jamais niée, mais qui ressortait chaque moment de son parcours. Ce n'était pas la solitude qu'on éprouve pour ne pas avoir eu un 'grand amour' - grand, petit; il semblait que l'amour avait toujours besoin d'un qualificatif ou quelque chose qui le mettait en évidence (même si l'évidence ne faisait que semblant de cacher le 'vide'). De cacher les vies d'eux...

C'était quelque chose qu'il ne pouvait pas combler et que lui faisait souffrir énormement. Que fait-on avec un tel trou?

La langue

Il s'excusait d'écrire dans une langue qui n'était pas la sienne. Il s'excusait aussi de ne pas la bien parler. Il ne le faisait que pour s'exprimer de manière étrange puis qu'il se rendait compte que c'est (j'entends c'était...) comme ça que sa vie à moi, que ma vie à lui était: une suite de malentendus sans cesse. Quand on parle une langue qui n'est pas la nôtre (est-ce qu'un jour j'aurais, moi, une langue à moi?) on a le droit de faire des fautes, d'avoir tort.

À la fin de ma vie j'aurai des excuses: je n'ai pas vraiment vécu ma vie parce que j'habitais un autre continent. Désolé mais je crois que j'ai eu tort.


***

L'evide(r)

Isso ocultava uma enorme solidão que ele nunca havia negado, mas que sobressaía a cada momento de seu percurso. Não era a solidão que se experimenta por nunca ter tido um grande amor - grande, pequeno; parecia que o amor precisava sempre de um qualificativo ou algo que o colocasse em envidência (mesmo se a evidência apenas fingisse ocultar o 'vazio'). De esconder as vidas deles...

Era algo que ele não podia tapar e que o fazia sofrer demais. O que se faz com um buraco tamanho?


A língua

Ele se desculpava por escrever numa língua que não era a sua. E se desculpava também de não falá-la bem. Fazia isso apenas para se expressar de maneira estranha já que tinha se dado conta que é (quero dizer era...) assim que sua vida minha, minha vida dele era: uma série de equívocos intermináveis. Quando se fala numa língua que não é a nossa (será que um dia terei uma língua para mim?), tem-se o direito de cometer erros, de se enganar.

No fim da minha vida terei desculpas: não vivi realmente minha vida porque morava num outro continente. Sinto muito, mas creio que me enganei.


Imagem: Bridget Riley


Segunda-feira, Julho 28, 2008

Do vagido à palavra: veredas














Olhava-se no espelho diariamente e sentia uma dor sem m
esura, inenunciável. Silenciosa, vinda do escuro e da tristeza, condenada a ser vácuo, a ser invisível. Perdia-se na tentativa de dizer algo que não existia e, quando lhe perguntavam o que sentia, percebia que ia explodir, porque não conseguia achar o que dizer e via que nem criando palavras seria capaz tocar aquilo. Era algo que lhe escapava, uma lacuna, algo que, de tão irrepresentável, podia nem mesmo existir - apesar da presença, lancinante: “une trop bruyante solitude”. Era como falar de algo que falta, tentar fazer o outro experimentar a própria fome ou fazê-lo sentir o próprio ódio – ambos ausências, o que apenas agravava mais o desespero de achar que nunca (jamais) conseguiria explicar. E não conseguiria mesmo, já que lhe restava apenas aprender a conviver com esse não-existir. Era um imperfeito, um “gerúndio” – com toda a angústia que o processo pode acarretar. Queria poder passar do grito ao sentido, mas a vida mostra sempre que nem tudo (malgré moi) é significado. Conviver com o inominável nem era possível. E prosseguir numa época em que se anunciava a materialização do fim da vida estava sendo duro. Vida rija, rígida, como o clima e certas vegetações. Como os caminhos de certas estradas nas quais andamos e nem sabemos por quê. Parce qu’il le faut, tout simplement. Sois pas bête, mon enfant. Mange ta soupe et apprend ta leçon: la vie, mon cher, n’est qu’une suite de rebondissements. Et il faut rebondir: n’importe où et n’importe comment. Mais il le faut.

Imagem: Miranda - The Tempest
(1916) - John William Waterhouse

Domingo, Setembro 30, 2007

Esperarei o próximo
(ainda que ele não venha)












... e apesar da ausência (privava-se de todos cotidianamente), via que os grãos do tempo caíam ininterruptamente, empurrando-o constantemente - mas não sabia para onde. Era, enfim, espectador de sua própria existência (e não ignorava o pesar que isso lhe causava). Passeava os olhos pelas letras, pelas pedras, pelas cores e pelas pessoas, mas sabia que nada permaneceria, já que tudo escapava e ia-se despedindo. Agora, mais do que nunca, via o tempo chegar (e sair pelas frestas dos dedos e pelos vãos das palavras) e a memória, frágil, já não conseguia mais resguardar o passado. Ainda assim, relutava em maldizer a vida, já que tinha aquela que havia escolhido. A maior prisão era sua liberdade (para quem não sabe escolher, poder é terreno onde se cultiva angústia). Esperaria o próximo, ainda que ele não viesse. "E que Deus te proteja, meu amor. Porque eu não posso mais".

Tarde uma nuvem rósea lenta e transparente.
Sobre o espaço, sonhadora e bela!
Surge no infinito a lua docemente,
Enfeitando a tarde, qual meiga donzela
Que se apresta e a linda sonhadoramente,
Em anseios d'alma para ficar bela
Grita ao céu e a terra toda a Natureza!
Cala a passarada aos seus tristes queixumes
E reflete o mar toda a Sua riqueza...
Suave a luz da lua desperta agora
A cruel saudade que ri e chora!
Tarde uma nuvem rósea lenta e transparente
Sobre o espaço, sonhadora e bela!


(Bachiana nº 05, Heitor Villa-Lobos)

Segunda-feira, Junho 18, 2007

Canção IX
Hilda Hilst, Júbilo Memória Noviciado da Paixão (1974)




Tenho meditado e sofrido
Irmanada com esse corpo
E seu aquático jazigo

Pensando

Que se a mim não me deram
Esplêndida beleza

Deram-me a garganta

Esplandecida: palavra de ouro

A canção imantada

O sumarento gozo de cantar

Iluminada, ungida
.

E te assustas do meu canto.
Tendo-me a mim
Preexistida e exata

Apenas tu, Dionísio, é que recusas
Ariana suspensa nas suas águas.

Imagem: Beauté - Gabriel Lefebvre.
Grifos meus.

Quinta-feira, Janeiro 11, 2007

Sans titre, sans date, mains vides: (encore) un.

Enfim. Seis ou sete frases fizeram com que doze estações desaparecessem abruptamente, tal gotas d'água em ferro quente. Deu-se conta de que as palavras ardiam muito nessas ocasiões. A contragosto, foi inevitável a suspensão da respiração, a vertigem. Finalmente um ponto final. Acabavam-se os parênteses, as reticências, os pontos de interrogação.

Difícil (mas necessário) era admitir que tudo era (apenas) seu, que tudo pertencia somente a si e nunca havia, sequer, chegado ao Outro. "Enganara-se. Infelizmente".

"Il faut continuer encore. Il faut continuer encore plus. Il faut continuer toujours. Não tem sentido, mas é preciso continuar". Essas palavras (clichês, talvez), adquiriam todo o sentido com o passar do tempo, seu ex-carcereiro fiel. Sim, ex: o futuro do pretérito tornara-se, então, pretérito mais-que-perfeito.