segunda-feira, março 14, 2011

Os passos em volta


Acreditava ter lançado um travessão, mas tudo havia sido entendido como um ponto final. E agora se via forçado a viver com reticências.

Dissera para ele usar os ouvidos quando os olhos não acudissem: o que fora dito poderia ter ressoado, suas palavras poderiam ter gerado outras palavras, retornado. Mas não foi assim. Os anteparos absorveram tudo e onde se esperava som, só silêncio. E essa insustentável leveza do nada pesa, mais que pena.

A todo momento pensava em se reerguer, retomar seu percurso, sua caminhada. E aquele intervalo entre dois tempos, brecha entre dois instantes revelava uma eternidade e um nada que estava sendo difícil suportar.

Dizia para si que poderia ficar observando de longe – feliz, admirado e na torcida – a escalada de outrem. Esperava que ele pudesse articular “a própria profundidade de seus talentos” (Herberto Helder).

Fez isso pelo “ser humano que era e que vinha cultivando e construindo todos os dias”. Mas, construir-se doía muito. Porque isso significava privar-se de algo que, repentinamente, havia adquirido importância e passara a fazer parte do cotidiano, essas “pequenas coisas”, detalhes, coisas supérfluas – que são sempre tão importantes.

Dava passos em volta de si para tentar esbarrar consigo. Porque já não se encontrava mais.  

Foto: Jean-Philippe Charbonnier

quarta-feira, dezembro 08, 2010

Amère


"A cara dela era um repouso estatelado, 
não queria dar-se em espetáculo, mas representava
de outrora grandezas".
Soroco, sua mãe, sua filha . Guimarães Rosa



Dancing on the street, Sebastião Salgado




Preocupações mais que justas: tempo de ponderar, refletir sobre as atitudes alheias já que, como lhe haviam dito, "ninguém sabe lidar direito com isso", "não é fácil para ninguém". Também não sabia direito o que fazer. 
Via ali, a penas, uma vida. Uma história particular de alguém, com momentos felizes e instantes tristes (bem recentes, aliás). 


"Ela não acode quando a gente chama", insistiam. Isso já era sabido - nenhuma novidade. Só se perguntava se colocá-la naquele trem ia adiantar. Se perguntava talvez porque duvidasse, pois não tinha certeza de nada e entendia ainda menos, a cada dia. Mas ali estava uma história e era isso que temia violar. A vida não é fácil para ninguém e estava sendo bem amarga. 


Que faire? Il faut continuer encore. Encore un peu. Pas de sens. 


No final das contas, talvez, um sorriso. 
    

sexta-feira, outubro 22, 2010

À la recherche de soi


Uma vida inteira tentando justificar uma existência. Além de encarar seus próprios algozes, tinha também que suportar as sombras alheias. Enfrentar sombras nunca é simples quando a alma não brilha. Aqueles olhos não podiam ser janelas (aquelas casas estavam vazias).

Recolher as pedras, os cacos (e também os espinhos). Recompor seu (frágil) abrigo - Cáucaso, já que, freqüentemente, sentia-se como Prometeu, acorrentada, tendo que suportar as investidas das rapinas diariamente. Mais, il faut rebondir, parfois. Cette existence n'a pas de sens. Pas d'essence. Padecência.

Foto: Cristiano Mascaro


To go on ...



"It's like forgetting the words to your favorite song
You can't believe it, you were always sing along
It was so easy and the words so sweet
You can't remember, you try to feel the beat"

Eet, R.S.

Imagem: Maureen Bisilliat


domingo, agosto 29, 2010

Virar a página...
















...mesmo que algumas palavras queridas e frases tão significativas fiquem para trás. Uma pena essa sensação. No fundo, querer que as coisas se repitam e sejam como eram antes, voltar para aquele parágrafo que, no momento em que leu, achou que iria lhe acompanhar por toda a vida. Mas o tempo chega e trás com ele a diferença. A gente é condenado a ter memória e sempre vai se lembrar. E você olha para as palavras e vê que elas mudaram. Ou vai ver você mudou e aquelas palavras adquiriram outros sentidos. Difícil sentir-se traído pelas palavras. Quando algo se quebra ou se rasga, a gente acha que pode colar, mas quase nunca funciona.

Imagem: Paul Signac, Le Palais des Papes (1900)


domingo, maio 09, 2010

Desmedida


Não fomos feitos para viver verdades. Atualmente pelo menos, preferimos os paradigmas. Insistimos na existência de múltiplas perspectivas, afirmamos que tudo depende do ponto de vista - eles mesmos tão distintos quanto os seres humanos. E já que a pluralidade é o próprio do humano e a diferença, seu ponto de partida, toda "unanimidade" ou "unilateralidade" seria burra, restritiva, empobrecedora. Tudo o que é reto é também estreito e parcial; tudo o que é pluriforme e multiangular, exprime melhor a complexidade do que é ser humano. Afinal de contas, para que se fixar ao "Uno" se ser "Pluri" - sem rótulos ou etiquetas, fronteiras ou limites - é de longe mais interessante? Por que o preto e branco, se flagramos já o colorido da vida?

Não ignoramos que viver essa pluralidade é um risco, até mesmo um tormento. Pois nada é sólido, dá sustentação, apoio. É como se tivéssemos que aprender a andar em terreno movediço: divertido no começo, mas logo se percebe que a coluna não endireita, que as pernas não se sustêm e que se está sempre no mesmo lugar - colorido, mas estático. Eis então, que surge uma nostalgia do preto e branco. E quando se volta ao monocromático, o mesmo sentimento de tormento retorna - se é que ele nos abandonou.

Fala-se muito em "meio termo", caminho do meio, que seria o ideal, é bem verdade. Mas eu, honestamente, não sei o que poderia estar no intervalo da alegria e da tristeza, do movimento e da estaticidade, do singular e do plural, do simples e do complexo, do amor e do ódio.

Gostaria muito de habitar nesse interstício, nesse vão, nesse entre. Mas não me parece possível. Somos condenados a viver entre extremos.

Foto: Bill Brandt (Ear on the beach, 1957).


sábado, fevereiro 06, 2010

"Literatura mundial em tragos"

A editora britânica TankBooks acaba de lançar uma linha de livros em forma de maço de cigarro (embalagens como as de Free ou Malboro Box). O formato, a princípio, parece interessante; mas fico pensando no status que o cigarro possui na sociedade hoje e se isso não seria indiretamente associado aos livros (como aconteceu durante a exposição sobre a Língua Francesa no Museu da Língua Portuguesa: colocaram poesias ao lado dos banheiros e no chão).

Será que no verso das embalagens eles colocarão aquelas propagandas anti-tabagistas? A Tank podera aproveitar para usar algumas daquelas imagens criativas para ilustrar alguns livros conhecidos e causar celeuma:




domingo, março 01, 2009

L'autre bout à rebours


Le bout de mes doigts ronds cachent ma vue aplatie par nombre d'expériences échouées.


Le bout de ma langue, venimeuse, interdit mes mots qui renferment mon visage carré. Quatre bouts vides, quatre angles gauches, quatre-vingt-dix degrés sur quatre égalent zéro.


Jadis, je me plaignais de la laideur du monde. Un monde à moi, que je me suis bâti avec ces mêmes doigts arrondis par le lent écroulement du temps.


Dorénavant cette même hideur s'accomodera en moi, me saccadera, secouera ces structures. Et j'aurai beau fermer les yeux devant le mirroir puisque tôt ou tard "tu deviens ce qui t'effraie".


Les ratures marquent la surface de la vie, elle aussi ayant le droit de se tromper. Cette même vie qui parfois nous trompe ou nous a déjà trompés. À nous, nos yeux, mon œil. Trompe-l'œil.Les traits et les traces y resteront malgré tout.


Quoique je fasse, je demeure là, loin. Longueur d'avance à ne jamais attraper, à ne jamais saisir. Une barrière à ne pas franchir, une borne, limite. Borne limite.


Quoique je prie, personne ne répond. Le monde est désert et Dieu s'en est allé. Il est sage.

Depuis, le monde est sourd. Toi aussi, tu as a hérité du silence, ce néant qui s'étend, ombre grise qui s'eparpille, lourdeur noire qui s'émiette et frappe.


Écoute-le : il étourdit plus qu'un cri.


Quoique je fusse, je serai toujours n'importe quoi. Et je m’en réjouis.

Et je reviens au bouts de mes doigts ronds.

Et j’apercois mon haleine.

Mon souffle.

Le bout de mon souffle.

Mon souffle à bout.

Le bout de mes forces qui disparaissent au coucher de l'éternité qui m’a été interdite.

Mes bouts sont à rebours.

À l’envers.

L'envers de moi.

Mon envers. Mes vers.

Ces vers envers moi-même.


Cícero Oliveira


Imagem: Dança, Lívio Abramo, s/d.